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Mensagens

GASPARICES

                                          GASPARICES  Recordar é (re)viver uma animação pró-psicadélica do anos 80; recordar é rastejar até ao mítico Bichinho Gaspar- o bichinho que vivia numa maçã, era comido, fazia uma viagem alucinada, casava e constituía família no fim. Pelo meio, a metamorfose dava-lhe asas e voava tão perto do sol que as queimava. Como estamos em época Gasparícia, decidi dar Gaspacho (uma espécie de despacho com assinatura de Gaspar) a esta memória. É isso: devia ter mais em que pensar, mas, por causa da conjuntura, a temporada de Reis não me trouxe muitas Gasparendas para brincar –apesar de não me caírem os Gasparentes na lama por isso.   Quantas vezes já Gasparaste hoje? Não é pergunta que se entenda- é um facto- mas, hoje em dia, dia não...

UM COMPROMISSO

UM COMPROMISSO   Dizer sim a tudo: agora é que é. Vou dizer sim a tudo o que surja em qualquer caminho que percorra: a tudo o que a vida quiser mostrar-me. Sim, sempre: mesmo nas situações que travam o curso natural   das glândulas salivares –um sim, apesar de engolido em seco, nunca deixa de ser um sim.   Sim, mesmo que –no calor dos acontecimentos- a mente puxe para o não; mesmo que o eu pequeno tente rasteirar as intenções do EU maior; mesmo que o ego esteja (como costuma estar) a incitar à negação. Porque o ego é assim: anti sim. Pior ainda: arrasta-te para o sim – única e simplesmente- em escolhas que, potencialmente, desequilibram a tua estrutura, desagregam-te os sentidos, congestionam-te o trânsito mental. E quando escolhes nestas condições, tornas-te prisioneiro das tuas próprias opções. E não conseguirás deixar de pensar nelas. E agirás de acordo com o que pensas. E o que pensas não é bom: é deturpado, embaçado, manipulado. Tudo o que se torna repetitivo...

O PRIMEIRO DE JANEIRO

  PRIMEIRO DE JANEIRO     O primeiro de janeiro é, definitivamente, o dia mais deprimente do ano; o primeiro de janeiro devia deixar de ser o número um, a casa de partida, o ponto de largada para novos trezentos e sessenta e cinco dias de velhos hábitos e padrões parasitados nas mentes humanas. Designe-se e registe-se em agenda– com todos os trâmites oficiais- o reveillon para o primeiro de janeiro: comece-se a pompa (sim, não se aniquile a tradição) no último de dezembro, e prolongue-se a circunstância por mais vinte e quatro horas. E depois sim: o segundo de janeiro para desintoxicar o corpo, reinventar o espirito e reanimar a alma. Era mais honesto, mais saudável, e provocava menos azia ao ter de ir trabalhar ou ir para a escola nas primeiras horas, do segundo dia, do novo ano. Caramba, lembro-me bem como era penoso regressar às aulas depois das férias do Natal, e começar a classe de Português com: as Janeiras.   Acontece que uma noite dos diabos termina o...

O REGRESSO

                                      O REGRESSO     Um homem com uma arma apontada à sua própria cabeça. Mão firme. Olhos fechados. Tranquilo não está – nunca poderia haver tranquilidade num momento de morte auto assistida. Tudo tão estranho, tudo tão hostil, tudo tão sem sentido: ódio pelo mundo, repugnância pela própria existência! Porquê continuar a carregar um fardo de infelicidade? Porquê prolongar, em assaltos infinitos, uma luta ... desigual com a sociedade? Ansiedade. Profundo anseio pela aniquilação. Este homem não queria – não podia- continuar a viver com ele mesmo. Ele mesmo: desprezível, falhado, azarado, peregrino no caminho do desamor, intoxicante como um gás repelente espalhado pelo mundo. Um suspiro, um último suspiro. Bang! Nada. Escuridão. Medo…muito medo! O homem (que...

OBRIGADO, DESIGUALMENTE!

                                       OBRIGADO, DESIGUALMENTE!     E viva as festas. E os jantares de empresa. E os abraços. E os braços dados. E os beijos feitos. E gritem-se os Felizes Natais, e outros desejos que tais. E proclame-se, como diz o povo, um próspero Ano Novo. E ouçam-se, de orelhas arrebitadas, os “obrigado, igualmente”, daqueles que são ditos – e escritos- a seco, em menos de cinco segundos, só porque tem de ser, só porque é de boa eduação responder qualquer coisa quando alguém te deseja…alguma coisa simpática. “Obrigado, igualmente” é o lema dos despachantes, dos “despacha lá isso, que já estou cheio de te ouvir”; reparem nas diferenças de velocidade que distanciam um “Feliz Natal” de um “obrigado, igualmente!”. Então: de um “Feliz Natal” ao “muito obrigado. Fe...

ENCONTRO DE SARAMAGO COM DEUS

ENCONTRO DE SARAMAGO COM DEUS -Que luz é esta que não me ofusca? Que voz é esta que não ouço, mas escuto nas profundezas da alma? E esta leveza que liberta o meu corpo; o corpo que já não vejo, o corpo que já não sinto. Deus! És Deus! Tu é que és Deus? -Vocês e os nomes. O vício humano de etiquetar tudo. -Mas és Deus, certo? -E tu és José, certo? -Sou. Prazer! Deus? -Aquele que É. Simplesmente aquele que É! -Pronto, sejas o que for ! Então qual é o meu castigo? -Castigo? -Sim, castigo! Sempre ouvi dizer que quem te ofendesse arriscava-se a uma punição eterna, atravancado no lodo infernal. -Estranhas palavras para um ateu! - Ateu. Não sou um –ou não era- um ateu total: todos os dias tentei encontrar um sinal de TI, mas infelizmente não TE encontrei. -Indícios; toda a vida terrena é feita de acontecimentos que indiciam que há – mais, muito mais- vida para além da vida. -Sim, sim. E eu sempre escrevi: “a vida é breve, mas cabe nela muito mais do que ...

PALAVRAS LEVADAS DA BRECA

PALAVRAS LEVADAS DA BRECA  Há pessoas que nasceram com o rabo virado para lua, diz o povo na sua sapiência infinitiva, tentando etiquetar aquelas pessoas que têm sorte em tudo e mais alguma coisa. Será mesmo assim? Será mesmo uma boa de uma sorte para alguém, logo à nascença, já estar de rabo feito, a oferecer-se para o que der e vier? E, se calhar, alguns destes sortudos, já crescidinhos, para além de darem o rabo, ainda põem dois tostões no pacote (lá está) de oferta para potencializarem os desígnios da fortuna; gostam de dar o rabo à seringa, mas quando a coisa lhes corre mal fogem com (imagino, a sensação de desconforto) o rabinho entre as pernas. Mas talvez a sorte de chegar a este triste mundo com o rabo virado para lua seja apenas porque alguém se livra, desde logo, de começar a levar umas nalgadas dos brutamontes dos médicos mal ponha o rabiosque de fora.   Depois, há quem nasça com o pau torto; um pau, testifica o dito popular, que jamais de endireitará; o dit...