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PALAVRAS LEVADAS DA BRECA


PALAVRAS LEVADAS DA BRECA

 Há pessoas que nasceram com o rabo virado para lua, diz o povo na sua sapiência infinitiva, tentando etiquetar aquelas pessoas que têm sorte em tudo e mais alguma coisa. Será mesmo assim? Será mesmo uma boa de uma sorte para alguém, logo à nascença, já estar de rabo feito, a oferecer-se para o que der e vier? E, se calhar, alguns destes sortudos, já crescidinhos, para além de darem o rabo, ainda põem dois tostões no pacote (lá está) de oferta para potencializarem os desígnios da fortuna; gostam de dar o rabo à seringa, mas quando a coisa lhes corre mal fogem com (imagino, a sensação de desconforto) o rabinho entre as pernas. Mas talvez a sorte de chegar a este triste mundo com o rabo virado para lua seja apenas porque alguém se livra, desde logo, de começar a levar umas nalgadas dos brutamontes dos médicos mal ponha o rabiosque de fora.
 Depois, há quem nasça com o pau torto; um pau, testifica o dito popular, que jamais de endireitará; o dito que nunca terá hipóteses de, no mínimo, colocar-se em pé de igualdade, e que terá como doloroso destino ser atirado ao gato da Dona Chica. Pode também dar-se o caso de crescer (torto -sempre) e tornar-se em pau para toda a obra. Bem, pelo menos não será como aquele que, um dia, foi apanhado com a boca na botija, e agora anda nas bocas do mundo. Ser apanhado com a boca na botija deve ser um dos mais tristes episódios na vida de uma pessoa. Em primeiro lugar, a correria desenfreada aos mercados (mini, super, hiper, mega, ultra-não interessa) para procurar a botija certa. E-azar dos azares- quando encontra a botija do seus sonhos é catado a provar os sabores  do gargalo.
  
 Enfim: coisas do arco-da-velha; a mesma velhota que tem habitação própria por trás do arco-íris, segundo os mitológicos- são levados da breca estes tipos. Mas a verdade é que, até hoje, ninguém conseguiu descortinar um argumento cientificamente lógico, para explicar o que faz uma senhora idosa, sozinha, o dia inteiro, a contar as sete cores.
 
 Durante uns tempos, o nosso amigo da botija, primo imediato de terceiro grau da velhinha do arco-íris, andou por aí aos caídos, ao Deus dará, a fazer trinta por uma linha – o que não era muito abonatório para ele, tendo quem conta que o “trinta” tem a ver com os trinta dinheiros que Judas (o tal que perdeu as botas, e tem um cú de que toda a gente fala) terá recebido por ter entregado Jesus aos seus inimigos-,  a tentar endireitar a cepa torta, a procurar um lugar onde cair morto (o mínimo de dignidade, faz favor) e a dizer sim às primeiras sopas que encontrava. Mas apresentava uma cara de quem comia e não gostava…ainda por cima. Triste sina a do espirra canivetes! Sim, aconteceu-lhe um dia…reza a lenda. Estava a assoar-se e saiu-lhe um canivete pelo nariz. Conta quem viu, que foi dilacerante, só de olhar: durou segundos a depilação definitiva aos pelos do nariz. Por estas alturas, em que passeou pelas ruas da amargura – em que teve de dar com a língua nos dentes para disfarçar a fome-, nunca ninguém o viu mais gordo: “para quem é, bacalhau basta!”, diziam às más línguas nas traseiras dos restaurantes; “mistura aí um alho com um bugalho e manda-o para o….”.Psssté…Calma! Alho, alho, caracol e "coibes"! Cobras e lagartos, aqui, não! Não com ele, que andou a contar favas, e mandava à fava qualquer casca grossa que lhe aparecesse pela frente. Ora embrulha e põe de molho!
  
 Bem, já estou para aqui a meter água. E assim esta vida não chega a netos. Até porque quem escreve o que quer, arrisca-se (e muito) a ouvir o que não quer. E sendo assim, fui. Fui enquanto o diabo esfrega ao olho, para ver se consegue perceber alguma coisa do que acabou de ler.

RUI MIGUEL MENDONÇA

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