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O REGRESSO

                                      O REGRESSO
 
  Um homem com uma arma apontada à sua própria cabeça. Mão firme. Olhos fechados. Tranquilo não está – nunca poderia haver tranquilidade num momento de morte auto assistida. Tudo tão estranho, tudo tão hostil, tudo tão sem sentido: ódio pelo mundo, repugnância pela própria existência! Porquê continuar a carregar um fardo de infelicidade? Porquê prolongar, em assaltos infinitos, uma luta... desigual com a sociedade? Ansiedade. Profundo anseio pela aniquilação. Este homem não queria – não podia- continuar a viver com ele mesmo. Ele mesmo: desprezível, falhado, azarado, peregrino no caminho do desamor, intoxicante como um gás repelente espalhado pelo mundo. Um suspiro, um último suspiro. Bang! Nada. Escuridão. Medo…muito medo! O homem (que deixou de ser homem) sente-se arrastado para um vórtice de energia. É uma energia forte, poderosa, mas não traz bons fluidos. Nem paz. Nem descanso. Nem Deus. Começa com um movimento lento - à velocidade do corpo a tombar no chão-, e depois acelerado. O medo torna-se mais intenso. O corpo, que acaba de deixar a alma, estremece. O corpo que vai, sem regressar. E a alma, que não tem para onde ir, a ser sugada para um vazio, para o limbo. Há dor, há angústia, ainda maior do que antes da morte. A morte dói. A morte, afinal, é dolorosa. Não é nada do que ele sempre imaginou. Não foi para sofrer mais que ele decidiu colocar os últimos créditos na vida. Nesta vida. E não filme: afinal não há a exibição daquelas imagens, projetadas num ritmo vertiginoso, do filme da passagem pela Terra. Não há –como era suposto haver - a revivência e plena compreensão de cada escolha feita. Só a lembrança, e o arrependimento da última das opções: a IVV (Interrupção Voluntária da Vida). De repente tudo pára. O homem ( que já não é homem) é compelido, por uma voz profunda, a não resistir. E não resiste. Deixa-se ir, permite-se ser arrastado de volta ao mundo. E volta, diferente, transformado. Morreu até à sensação de morte. Agora, tudo é fresco e imaculado: tudo é vida!
 
RUI MIGUEL MENDONÇA
(TEXTO A CONCURSO NA SÉTIMA SEMANA DA ESCOLA5D: ESCOLA DE ESCRITA E CRIATIVIDADE)

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