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O HOMEM QUE ESTÁ SEMPRE ATRÁS



 Antes de mais, e de tudo, convém esclarecer, e para evitar memorandos de desentendimentos, que o título não contém figurativos maliciosos, nem sequer traz outras conotações, muito menos segundas intenções. Nada; é apenas um título sobre o homem que fica, realmente, sempre atrás. Não exerce qualquer tipo de poder, mas pode gozar os dois minutos (se tanto) de fama, na peça do telejornal.

 Aquela figura que vemos, tantas vezes, atrás dos políticos, sempre a dizer que sim, em plena concordância com que está a ser dito, mesmo que seja sobre a maior alarvidade do planeta. “O desemprego é necessário ao país”- lá está o homem, assinando e acenando por baixo; “os portugueses têm de se deixar de pieguices”- pois claro, pois claro; “ o melhor é emigrarem, porque daqui já não levam nada”- ah pois têm, pois têm! E acena porque grama mesmo esta cena de estar a dizer que sim e aparecer na televisão. E, sempre, tudo acompanhado de um sorriso cúmplice; nas redes sociais, seria o tipo que distribuiria (o irritante) LOL por tudo e mais alguma coisa que o político, da sua eleição, postasse; nem ele próprio sabe porque sorri, mas sorri na desgraça e ri, desalmada e sonoramente, na graça. Mesmo que não tenha piada nenhuma; o equivalente ao “ashauhsashuas” cibernético.

 O homenzinho-Sim surge, normalmente, da militância-míuda dos partidos políticos; é escolhido entre os muitos que estão anos, anos, anos, e anos reduzidos à condição de invisibilidade. Até que chega o dia; o dia em que um assessor (faz lembrar ascensor, mas que se desloca, apenas, no sentido ascendente: o dos gabinetes) convoca, em reunião magna, alguém que queira o acompanhar o grande líder numa visita de estado.

 A criatura-Sim não precisa de instruções, porque a cabeça já se movimenta espontaneamente para cima e para baixo. Só tem, mesmo, de fazer sim para a esquerda, sim para a direita, sim para o centro.

 Mais tarde (às vezes mais cedo do que ele próprio julga), esta figura SIMpática é promovida a porta-voz parlamentar. Sim, é a grande recompensa por todos os seus préstimos contributivos à causa afirmativa. A partir daqui ele passa a ter voz, já fala; deixa de aparecer, mas faz-se ouvir: “apoiado, apoiado!", "muito bem,muito bem!".


RUI MIGUEL MENDONÇA

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